Divulgação. © P.A.Works / Tomihiko Morimi

Divulgação. © P.A.Works / Tomihiko Morimi

Humanos caminham na cidade, tanukis se arrastam pelo chão, e os tengus dominam os céus. Por séculos, esse frágil balanço vem se mantendo. Na moderna cidade de Kyoto, esta é a história de uma família.

Anime de 2013 com 13 episódios, Uchouten Kazoku é uma produção do estúdio P.A.Works que adapta ao livro de mesmo nome, escrito por Tomihiko Morimi.

Uma história japonesa

Divulgação. © P.A.Works / Tomihiko Morimi

Divulgação. © P.A.Works / Tomihiko Morimi

Tanukis e tengus são ambas figuras folclóricas para o Japão. Ainda que um animal real, lendas sobre os tanukis afirmam que eles teriam a capacidade de se transformar, sendo típicos arteiros para com os humanos. Já os tengus são de fato figuras mitológicas, seres humanoides com asas e narizes longos, que habitam nas montanhas.

Pela própria premissa da série, já podemos ver o quão embebida na sua cultura de origem ela está. E de forma nenhuma ela para apenas na menção a duas figuras folclóricas. Uchouten Kazoku é uma obra tipicamente japonesa, referenciando a cultura tradicional do país até nos seus detalhes mais sutis.

O próprio fato da história se passar em Kyoto é um bom exemplo, sendo esta a antiga capital do Japão e hoje uma cidade histórica por excelência; temáticas como a família e a linhagem são também tratadas em uma ótica tipicamente japonesa. Festivais, costumes, objetos, apenas algumas cenas ricamente preenchida com referencias culturais que poderiam passar despercebidas ao espectador ocidental.

De certa forma, isso é tanto a força quanto a fraqueza do anime. Para muitos, não ser capaz de pegar cada ponto que a obra faz pode acabar passando uma sensação de que se perde alguma coisa, o que pode ser bastante desestimulante. Outros, porém, talvez se sintam compelidos a querer entender essas menções, e se interessem por aprender mais sobre a própria cultura tradicional japonesa.

Isso dito, a história em si não é realmente nada de muito complicado.

História e personagens

Divulgação. © P.A.Works / Tomihiko Morimi

Divulgação. © P.A.Works / Tomihiko Morimi

Em seus primeiros episódios, a história de Uchouten Kazoku quase soa como um slice of life (vida humana) sem maiores direções, focado sobretudo no protagonista Shimogamo Yasaburo, um tanuki que se considera orgulhoso demais para ser só um simples tanuki, e na sua relação com familiares e conhecidos próximos.

Lentamente, porém, a trama vai se focando na aproximação de dois grandes eventos: a reunião de fim de ano dos amigos de Sexta, um clube humano cujos membros sempre fazer um ensopado de tanuki nesta data; e a eleição do próximo líder da sociedade dos tanukis.

Para os personagens da família de Yasaburo, um grupo de tanukis que inclusive já perdeu o pai em uma das festas dos amigos de Sexta — este, aliás, que era o antigo líder da sociedade dos tanukis —, ambos os eventos são, logicamente, de grande importância, ainda que os membros da família inicialmente se importem com eles em diferentes graus (o próprio Yasaburo não dando grande atenção especialmente para a próxima eleição, ainda que seu irmão mais velho seja um dos candidatos).

E para dois eventos que poderiam muito bem gerar duas tramas paralelas praticamente sem correlação maior, o anime foi bastante competente em unir as duas narrativas, construindo uma história muito bem amarrada, ainda que talvez com algumas pontas soltas.

E mesmo que com algumas coisas não clarificadas ou explicadas, especialmente no que diz respeito ao universo da série, o final é ainda bastante satisfatório, sendo uma ótima história para quem talvez esteja cansado de animes terminando em um clifhanger para uma segunda temporada que provavelmente nunca virá.

Divulgação. © P.A.Works / Tomihiko Morimi

Divulgação. © P.A.Works / Tomihiko Morimi

Mas tudo isso dito, não há como negar que o verdadeiro foco da história está em seus personagens, e na forma como interagem uns com os outros e com as situações nas quais acabam imersos. Esta é, afinal, uma história sobre família, então nada mais natural que o efetivo foco ser, bom, a família.

Nesse ponto, todos são ótimos personagens, bem construídos e desenvolvidos, e podemos muito bem entender suas motivações, ideais, ideologias, bem como o como e o porquê destas diferentes personalidades eventualmente entrarem em conflito. Suas relações uns com os outros, especialmente dentre os personagens da família principal, são também suficientemente bem exploradas e desenvolvidas, rendendo tanto momentos descontraídos e cômicos, quanto momentos legitimamente dramáticos e emotivos.

Infelizmente, o texto ficaria longo demais se eu fosse comentar sobre cada um dos personagens da série. Mas eu vou tocar em uma personagem que é, de longe, a mais incompreensível de Uchouten Kazoku: Ben Ten. Uma humana, ensinada a voar como um tengu, que sabe sobre a sociedade dos tanukis, e que acaba por ingressar nos amigos de Sexta, ela é de certa forma a personagem que conecta todos os pontos da história, mas sobre ela em si nós sabemos bem pouco.

Suas ações e motivações nunca ficam muito claras, o que a faz ostentar uma constante aura de mistério e perigo. Ao mesmo tempo, ela nunca passa uma sensação de perigo verdadeiro, e na maior parte das vezes age mais como uma aliada do protagonista, mesmo que por vezes sob condições específicas.

Divulgação. © P.A.Works / Tomihiko Morimi

Divulgação. © P.A.Works / Tomihiko Morimi

A química dela com o Yasaburo, nesse sentido, é talvez a mais interessante do anime, e fica uma impressão de que eles se sentem, ao mesmo tempo, atraídos e repelidos um pelo outro.

No mais — e já que estou no assunto —, outras dinâmicas de personagem que se destacaram foram as de Yasaburo com seu irmão mais velho, Yashiro, e a daquele com o seu professor, o tengu Akadama. Com uma personalidade solta e que ambiciona pelo não convencional, Yasaburo é praticamente a antítese de ambos, que seguem presos ao tradicionalismo e ao convencional de uma forma ou de outra, o que rende ótimos momentos.

Vale dizer, nenhum destes ideais realmente “ganha” ao final. Os personagens não tendem a mudar drasticamente de opinião, mas sim chegam a uma espécie de entendimento mútuo e aceitação de quem são, como preferem agir, e do que de fato consideram importante, o que rende uma boa conclusão para o desenvolvimento de cada um.

Considerações finais

Divulgação. © P.A.Works / Tomihiko Morimi

Divulgação. © P.A.Works / Tomihiko Morimi

Uchouten Kazoku é um ótimo anime. Ele tem seus defeitos, sim, o maior deles sendo o fato de seu universo ser tão pouco explorado que muitas dúvidas acabam ficando no ar. Ainda assim, os acertos mais que compensam os erros, constituindo uma obra com seus momentos calmos, divertidos, dramáticos e emotivos que atingem em cheio ao espectador.

Os personagens são interessantes e carismáticos; e os temas, como a desestruturação da família após a perda do patriarca (e mesmo de toda a sociedade após a perda do seu líder) e a própria importância dos laços familiares, se combinam a elementos culturais, estéticos e geográficos que terminam com uma bonita exaltação da cultura tradicional japonesa.

No aspecto técnico, a produção é belíssima, especialmente no que diz respeito aos planos de fundo muito bem desenhados. A trilha sonora é também muito boa, e a musica de abertura provavelmente ficará na sua mente por alguns dias. Um anime leve e divertido, mas também emotivo e profundo: definitivamente uma obra que vale a pena dar uma olhada.