Divulgação. © Takako Shimura / Enterbrain

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Baseado no mangá homônimo de Takako Shimura, Hourou Musuko, anime de 2011 do estúdio AIC, é um slice of life de 11 episódios que conta a história de duas crianças transexuais: Shuichi Nitori e Yoshino Takatsuki.

“Do que as garotas são feitas?”

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Do que as garotas são feitas?” Esta frase, literalmente a primeira a ser dita em Hourou Musuko, é uma referência à cantiga europeia do século XIX What are little boys made off. A resposta à pergunta, na cantiga, também aparece mais tarde no anime: “açúcar, tempero e tudo o que há de bom”.

A uma primeira olhada, o motivo do anime começar com esta frase pode parecer simples. Sendo uma história sobre transexualidade, a pergunta de imediato soa como uma provocação à própria ideia, bem mais antiga o que a própria canção, de que existe algo externo que defina categoricamente o que torna alguém de um gênero ou de outro. Mas há algo mais ai.

É interessante notar que essa pergunta é feita três vezes ao longo do primeiro episódio. A primeira, no começo  é sucedida pelo protagonista falando como seu uniforme escolar masculino o sufoca, mesmo sendo de um tamanho maior. A segunda vez vem quase no meio do capítulo, e é aqui que é dada a resposta. E a terceira vem um pouco antes do ato final. E cada vez que a pergunta aparece, a resposta original, “açúcar, tempero e tudo o que há de bom” soa cada vez mais ingênua. Infantil, talvez seja a palavra. Claro, isso não é por acaso: trata-se, afinal, de uma canção infantil.

Em toda essa construção, fica bastante claro qual será o tom que a série tomará pelos seus 11 episódios. O nosso elenco principal é o de personagens que estão lentamente entrando na adolescência, uma época no qual o mundo mágico e inocente da infância, qual a resposta “açúcar, tempero e tudo o que há de bom” ainda soa como aceitável, vai se desgastando e dando lugar a uma situação de mudanças e incertezas, tão próprias da adolescência, a qual exige uma posição mais complexa.

Hourou Musuko é, ao final, uma obra sobre definições, em especial a definição de si mesmo. “Quem eu sou” e “qual o meu lugar neste mundo” são perguntas que ficam no ar conforme o anime progride. Não seria, portanto, incorreto considerar o anime como um slyce of life de tipo comming of age, embora aqui a “roupagem” é claramente diferente do que você encontra na maioria das obras do tipo.

História e personagens

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Em termos de trama, Hourou Musuko tem um começo bem… curioso. Parte disso se deve à como a obra foi adaptada: com o mangá tendo um total de 15 volumes, o anime cobre dos volumes 5 ao 10, adaptando essencialmente o “meio” da história. Isso significa que quando começa, o mangá já teve 5 volumes de construção de seus personagens, suas relações uns com os outros, e eventuais problemas.

Como resultado, no começo é como se o espectador fosse “jogado” para dentro de um trem em movimento. Mas acredito que isso não seja por acaso, muito menos um “erro” da adaptação. Considerando o que foi falado, provavelmente não será surpresa eu dizer que é inteiramente sobre os seus personagens, e que separá-los da história é praticamente impossível. É a história deles.

Nesse ponto, a série certamente acerta: seus personagens não são apenas carismáticos e bem trabalhados, como ainda são incrivelmente realistas, ao menos em sua maioria. São personagens bastante humanos, capazes de expressarem todo um espectro de emoções e sentimentos, conformismos e inconformismos, incoerências e inconsistências, que os tornam incrivelmente tridimensionais.

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Claro, existem exceções. A personagem Saori Chiba é claramente autoconsciente demais para uma criança, e personagens como a Sasa e a Sarashina por vezes soam como um tanto quanto unidimensionais demais. Mas o restante dos personagens ainda conseguem constituir um elenco incrivelmente verossímil, do tipo que raramente vemos em outros animes.

E o começo muito ajuda nessa sensação de verossimilhança. Hourou Musuko é, para todos os efeitos, um verdadeiro slyce of life no sentido mais literal do termo. O que vemos é apenas um recorte da vida destas pessoas, que continuam para trás e para frente no tempo, longe das câmeras que delimitam o começo e o término da história contada ao espectador.

Quando o anime começa, muito já aconteceu entre aqueles personagens. Nitori, Takatsuki, Saori, Sasa e Mako eram um grupo de amigos próximos, mas que algumas circunstâncias levaram ao progressivo afastamento deles. A história, de certa forma, se passa justamente num momento de pós-catarse, e é essencialmente a história de como os laços entre estes personagens irão se reatar. Sem nunca, porém, voltarem ao que eram antes, além de terem de dar espaço a novos laços formados, agora, com personagens que, tal com o espectador, acabaram de chegar à história.

Aspectos técnicos

Divulgação. © Takako Shimura / Enterbrain

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Normalmente, eu não dou grande atenção a aspectos técnicos, não atoa, na maioria das minhas análises, apenas os menciono brevemente na conclusão. Porém, no caso de Hourou Musuko acredito que vale a pena um parágrafo ou dois, isso pela forma com que os aspectos técnicos complementam muito bem a atmosfera de Hourou Musuko.

O traço e a coloração provavelmente são o maior exemplo disso. O anime tem um traço bem mais “limpo”, sobretudo em seus personagens. Por um lado, no começo isso pode dificultar diferenciar entre eles, mas por outro essa aparência mais “sóbria” muito adiciona ao realismo da história. Já a coloração vai quase que no sentido oposto.

O anime tem esse estilo quase que de aquarela em suas cores, na maior parte do tempo, que dão a ele um ar de livro infantil, ao mesmo tempo em que passam uma curiosa imagem de melancolia. A trilha sonora, inclusive, tem um efeito bem semelhante, sendo em sua maioria calma e relaxante, mas algumas faixas são claramente mais melancólicas, de forma que a musica normalmente reflete muito bem os sentimentos dos personagens.

A abertura e o encerramento merecem um comentário a parte, e combinam muito bem com o tom de toda a história. Especialmente a abertura consegue ter um tom ao mesmo tempo esperançosos e melancólico, especialmente se você prestar atenção à letra.

Considerações finais

Divulgação. © Takako Shimura / Enterbrain

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Pensando em retrospecto, é possível que quem ler esta análise pense que Hourou Musuko é um daqueles animes extremamente dramáticos, mas este definitivamente não é o caso. Em fato, não são poucas as vezes em que o anime consegue arrancar boas risadas do seu espectador, especialmente no começo. A obra é um drama, sim, mas pelo seu enfoque nos personagens ela pode ser muito mais do que apenas um drama, passando ao espectador todo um espetro de emoções que, a bem da verdade, provavelmente o deixarão com um leve sorriso no rosto ao final de cada episódio.

Um anime provocativo em seu tema, abordado de forma séria e madura, sem, contudo, ser excessivamente chocante ou forçado. Com um vasto elenco de personagens carismáticos e bem trabalhados, e uma parte técnica que perfeitamente complemente a obra, Hourou Musuko é um anime para ver e rever.

  • Amy

    Começei a assistir esse anime ontem -q
    Ótima Recomendação <3

    • pg

      É bom, mas se quiser aproveitar a história,tem que ler o mangá

  • Lucas Fernandes

    Isso vai dar confusão…

    • Diego

      Por que acha isso? =)

    • Milie

      o anime é velhinho até, cara. Assisti um pouco na época q saiu.

  • Um anime de Lesbicas, Yuri?

    • Carol

      Não. Nem chega a ter realmente um romance, os personagens são bem crianças ainda.

    • Milie

      Mais um anime sobre trans doq sobre lésbicas…
      Mas não, não considero y@ri. Principalmente pelo mesmo motivo da pessoa q respondeu antes. Ñ chega a ter romance, é mais sobre a vida e talz.

  • doko

    “Açúcar, tempero, e tudo que há de bom.”

    Em inglês, parece com a narração de entrada das Meninas Superpoderosas: “Sugar, spice and everything nice…” — que provavelmente foi tirado dessa mesmo fonte, essa canção aí.

    • Diego

      Sim xD A primeira coisa que notei quando vi a canção inteira foi a frase que lembra as Meninas Superpoderosas. Dá uma baita sensação de “aaaahhh, então veio DAÍ!” kkkk

  • Carol

    Eu já assisti e gostei muito, pretendo ler o mangá.

  • Capitão Rolha

    Baixei o anime sem ler o review e me arrependi profundamente! Até em anime agora tem aberrações…

    • jaiden shiba

      Eu não estou interessado nessa série ,mas é simplesmente por gosto
      pessoal .Enquanto houver gente julgando as pessoas por nascerem diferentes os neocomunistas e outros “justiceiros” poderão posar de
      defensores dos oprimidos para continuarem divulgando sua ideologia
      questionável.As pessoas precisam entender que aceitar os outros não
      tem nada a ver com esquerdismo e é uma verdadeira atitude cristã.

      • doko

        Olha outra atitude cristã (Levitico 18, 22): “Não se deite com um homem como quem se deita com uma mulher; é repugnante.”

        Além disso, você tá fazendo exatamente aquilo que condena, julgando quem diz ser “neocomunista” ou “justiceiro” como alguém que posa de defensor dos oprimidos e que divulga ideologia questionável.
        Você acabou de fazer um julgamento.

        • jaiden shiba

          Se acha o comunismo é a salvação da humanidade e que
          todo mundo que acredita em Deus(não em seguir a bíblia
          palavra por palavra ) é racista simplesmente não dá para
          conversar, deve ter gente por aí com mais vontade de brigar.

      • João Alexandre

        O comentário dessa pessoa não deveria ter passado. Caso alguém tenha se ofendido, perdão.

    • Diego

      Olha… Não é por nada não, mas a presença de personagens transexuais nos animes é beeeeem antiga já ^^’ Presentes mesmo em animes bem populares, como Hunter X Hunter (a irmã do Killua) e Steins;Gate, e tão antigos quanto Stop Hibari-kun, anime de 1983 sobre um garoto que se veste de garota.

      Você tem todo o direito de não gostar e de não querer ver (embora chamar de “aberração” foi bem… er… indecoroso, para usar de um eufemismo), mas isso nem de longe é algo recente. Hourou Musuko é só um dos poucos a trazerem o assunto para o centro da narrativa e o tratarem com tons mais sérios.

      Ah, e pra finalizar: mas é nisso que dá ir vendo animes sem nem ler a sinopse, cáspita! XD kkkk

      • Noir Fleurir

        Mais do que indecoroso, é crime. Ninguém é obrigado a mudar de opinião sobre o assunto, mas expressá-la já é outra história. A liberdade de expressão não deve ferir a liberdade alheia nem ser usada como desculpa para injuriar os outros (alguém já ouviu a frase “sua liberdade termina onde começa a minha”? É bem por aí). Certas coisas as pessoas devem guardar para si, pelo bem-estar da sociedade, que dispensa a necessidade de ouvir os preconceitos de cada um, que só ofendem e contaminam o mundo com mais energia negativa, que, convenhamos, já tem demais.

      • Noir Fleurir

        Mais do que indecoroso, é crime. Ninguém é obrigado a mudar de opinião sobre algo, mas expressá-la é outra história. A liberdade de expressão não deve ferir a liberdade alheia nem ser usada como desculpa para injuriar os outros (já ouviram a frase “sua liberdade termina onde começa a minha”? É por aí). Por isso certas opiniões as pessoas devem guardar para si, pelo bem da sociedade, que dispensa a necessidade de ouvir os preconceitos de cada um, pois só ofendem e contaminam o mundo com mais energia negativa, que, convenhamos, já tem demais.

        • William Assunção

          E olha que nem todos os cristãos são assim mais, até mesmo o Papa Francisco já está contra esse preconceito, principalmente quando ele disse pra uma pessoa trans “Deus lhe aceita como você é”

          Enfim, preciso voltar a ler e assistir essa série, muito boa por sinal!

  • Noir Fleurir

    O certo não seria “slice of life”?